sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

1

Quando abri os portões o que me esperava eram enormes prateleiras que se estendiam em paredes infinitas formando corredores que mais pareciam labirintos. Um silêncio sepulcral se apresentava como minha única companhia. Com passos secos caminhei até as estantes e deixei que a ponta dos dedos deslizasse em uma carícia pelos livros. Puxei aleatoriamente um onde se via uma lombada dourada onde se lia "O livro de ouro da Mitologia" de Thomas Bulfinch. Abri na página 149 e li:

- Não tentes amedrontar-nos com tuas imposturas! - exclamou Tesceleu.
Ergueu o dardo, para lançá-lo, e transformou-se em pedra nessa posição.
Ampix ia cravar a espada no corpo de um inimigo prostrado, mas seu braço inteiriçou-se, e ele não pôde estendê-lo, nem dobrá-lo. Outro, no meio de um ruidoso desafio ficou com a boca aberta, sem emitir qualquer som. Aconteus, um dos amigos de Perseu, avistou a górgona e imobilizou-se com os outros. Astíages atingiu-o com a espada, mas esta, em vez de feri-lo, retrocedeu, com um ruído áspero. 
Frineu, contemplando o terrível resultado de sua injusta agressão, ficou transtornado. Chamou os amigos, em voz alta, mas não obteve resposta; tocou-os e viu que eram pedra. Caindo de joelhos e estendendo os braços para Perseu, mas com o rosto voltado para outro lado, implorou misericórdia. 
- Toma tudo, mas poupa-me a vida - exclamou.
- Desprezível covarde - retrucou Perseu -, conceder-te-ei isso. Nenhuma arma te tocará. Além disso, serás conservado em minha casa, como lembrança destes acontecimentos.
Assim dizendo, levantou a cabeça da górgona na direção em que Frineu olhava e este transformou-se num bloco de pedra, na mesma posição em que se encontrava, de joelhos, com os braços estendidos e o rosto virado. 

Era um livro interessante. Analisei a capa. 
Então era isso. Minha paga seria permanecer ali até que meu mal fosse expurgado. Suspirei conformado por ao menos contar com a companhia de todos aqueles pedaços de alma. Apanhei o livro e fui até uma confortável poltrona que ficava isolada de frente para uma enorme janela arqueada. Pelo vidro só entrava a mais pura luz, porém, através da transparência, nada era visto. Me estirei e recomecei a ler o livro com deleite. Restava-me apenas mergulhar naquele mundo e ficar no aguardo por outros cuja sede de saber permitissem adentrar aquela sala. 

Um comentário:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir